18.2.10

9 mulheres

A – Exaltação da inocência aos confins do ridículo mas sem chegar exactamente lá.
D – Snobismo e cumplicidade em delicada e aparentemente honesta emulsão.
R – Uma fábula que se lê mil vezes do princípio ao fim sem nunca se perceber o enredo.
A – Um medley desconjuntado de filmes em fast forward.
S – Virtude e obstinação em fórmula inquieta como uma tinta esbatida sobre o desespero.
C – Uma caixa de mistérios aos tombos pela estrada fora.
M – Um sonho quente e confuso.
R – Um espelho em frente a um espelho em projecções infinitamente banais.
S – O questionável triunfo da ciência sobre a susceptibilidade.

15.2.10

As questões supremas

Às vezes vejo pessoas adultas (e inteligentes) comprometerem a sua fachada intelectual com aquilo que julgavam ser a ascensão ao esclarecimento das questões supremas. É o verdadeiro baque cognitivo. Caso haja silêncio total na sala, acreditem que podem ouvir o som da inteligência a bater nos seus limites físicos, fazer ricochete e cair na estupidez. Normalmente o que se segue são chorrilhos pouco esclarecedores.
Resolvam-se primeiro as questiúnculas, passe-se depois à aceitação dos limites, fica-nos bem melhor.

4.1.10

Hellou???

Nunca pensei. Quer dizer, já tinha reparado nisso, mas nessa altura tinha o dom de me culpar a mim próprio (era um bocadinho mais pacóvio que hoje). Agora já posso afirmar com a segurança de quem ainda se deu ao trabalho de tentar em múltiplas e sofridas investidas – Eles são a mais hermética cambada de snobes à face do planeta e se vida haverá noutras galáxias, aí também ganharão a largos pontos. Considerando a missão em que dizem estar envolvidos são portanto um falhanço mais que épico.

17.12.09

Incerteza

A incerteza é um creme espesso que não nos deixa ver o que está prestes a emergir. Vive-se na incerteza como quem se agacha debaixo de uma mão levantada em pose de açoite. Fecham-se os olhos e espera-se e enquanto se espera vive-se. Andamos todos um bocadinho assim.

26.11.09

Calma aparente

Há uma certa qualidade de vida em ambiente de calma aparente. Implemente-se portanto essa forma bastarda de paz. Primeiro faz-se tudo o que está ao nosso alcance, depois curte-se essa quietude provisória na companhia das pessoas e dos vícios de eleição.

2.11.09

Brecha

Há gente que com as mãos arranca a terra de debaixo dos pés de outra gente e os levanta ao ar como se nada fossem. Os outros limitam-se a ficar em cima desse pedacinho de terra e a esforçarem-se por não cair pelas bordas abaixo.

Estes dois tipos de pessoas, convivem a meias paredes mas nunca se encontram. É certo que se vêm umas às outras e até dizem 'Bom dia, está bom?', mas nunca se encontram no sentido de se descobrirem. Porque se se descobrissem, descobririam que eram demasiado iguais e essa é precisamente a razão porque nunca se poderão descobrir.

Hoje, por um momento, juraria que consegui abrir uma brecha na parede que separa as duas gentes, tivesse sido suficientemente grande e eu próprio ter-me-ia esgueirado por ela acima.

30.10.09

Vivaldi

Na era do áudio digital portátil e acessível, dos iPods e etc, as empresas que nos metem em espera ao telefone a ouvir as 4 estações de Vivaldi em formato bip, bip, bip deviam ser duramente punidas.

27.10.09

Dos olhos

Os olhos são uma espécie de tazer congénito.
Uma vez, só com os olhos, um grupo de magrebinos de Nice conseguiu pôr-nos em fuga por uma praia de cascalho adentro com as 4H engatadas na Strakar.

20.10.09

Política

As pessoas decidiram demarcar-se pela política. Haveriam outras costuras bem melhores por onde traçar fronteiras, diga-se. As pessoas podiam diferenciar-se de molde a gerar acesas e furibundas discussões (e tiros, ocasionalmente) com base numa coisa muito mais significativa, tipo os sapatos que trazem calçados.

Por exemplo, eu, que voto Adidas Superstar (hoje... amanhã vão ser umas Nike vintage que adquiri na Prof) não hesitaria em envolver-me em impetuosa discussão com alguém que me aparecesse pela frente com uns sapatinhos de berloques. É que, os sapatinhos de berloques em termos de meter nojo, encostam a um canto até os mais ousados sapatos de vela sem meia.

Sapatinhos de berloques de tingidura avermelhada com meia azul-escura em gajo de calça de ganga e casaco caqui. Não me interessa saber em que partido vota este vendedor de Bimbys, há algo muito mais profundo a abismar-se entre nós, que se sobrepõe a esquerdas e direitas inventadas.

Como disse a tia Natália: "as esquerdas e as direitas resultam do pacto de não inverterem os papéis", e isso foi logo a seguir a "as nações içam as bandeiras para porem o falo a pino e masturbarem-se".

8.10.09

Alice

Alice tinha uma caixinha de cartões de visita aberta em cima da mesa.

Eram 10 da manhã.

Há bem pouco tempo, Alice não hesitaria em admoestá-lo por estar a beber meio litro de Erdinger a estas horas, agora aspirava uma linha de coca de dentro da caixinha de latão reluzente e ria-se como quem se desculpa de um pequeno desleixe. Ria-se de olhos franzidos enquanto esfregava as narinas e se levantava para o cumprimentar.
Ele pôde cheirar o seu hálito doce, enquanto recebia um e um só beijo, do lado esquerdo, como antigamente. De repente foi como se todos os nervos da sua pele se concentrassem naquele pequeno ponto onde os lábios dela se colaram por menos de um segundo - em câmara super lenta; plic... ploc.

Havia naqueles lábios quentes a memória apagada de um corpo inteiro, partilhado durante muitas horas e muitas noites, mas há muitos anos (não mais que dois, entenda-se).

Ele arrastou a cadeira e tentou sentar-se, arrastou a cadeira outra vez, os pés da cadeira prendiam-se nos pés da mesa, o tapete franzia-se, a toalha deslizava, as velas tremiam no centro da mesa... ela observava-o em silêncio.
Sentou-se finalmente.

20.9.09

Citroën

Tenho encontrado pessoas Citroën.

Explique-se.
Nas décadas de 40 a 70, os automóveis Citroën foram dos melhores e mais bonitos da História (que também se conta com objectos). Veja-se o 2CV de 1948, uma obra singular de mecânica back to basics e estética que, sendo de inspiração campónia, surpreendeu as urbes europeias durante os 40 anos seguintes. O DS de 1955, obra do designer italiano Flaminio Bertoni, provavelmente a melhor escultura sobre rodas de todos os tempos. O SM de 1970, a última pedra preciosa a sair de casa com genes Maserati. E ainda houve a mítica camioneta H Van (a Combi era para hippies totós), e o Ami 8 e o Dyane e o FAF (brilhante) e o Méhari e até o GS (os meus pais tiveram um) cujo painel de instrumentos parecia herdado de um ovni.

A Citroën lembra-me aqueles gajos que de um dia para o outro apareceram casados com uma gaja feia, da qual tiveram filhos feios, que ainda por cima se vestem com roupas muito feias. Não sei quem terá sido a matrafona a atrofiar o génio criativo da marca, mas as crianças estão aí para toda a gente ver: o Visa (desenvolvido em parceria com uma equipa de ciganos romenos), o AX (favorito entre os tunings mais tesos e os bonifrates do rendimento mínimo), o BX (viatura oficial dos vendedores de alcatifa e propaganda médica), o Saxo (o espírito AX mal revisitado numa viatura direccionada ao mercado das empregadas domésticas) e os outros, demasiado amorfos para suscitar figuras de estilo interessantes.

Sem ofensas, tenho encontrado pessoas Citroën.

Sê-lo

‘Sê-lo’ para residentes a sul do Mondego (e ainda piora mais abaixo).

Eu sou-lo
Tu és-ze-o
Ele é-ze-lo
Nós somos-o
Vocês (lá não se diz vós) são-zo
Eles são-zo-lo

18.9.09

Perspectiva

"Já reparou como os desenhos das crianças são fascinantes até aprenderem a perspectiva? Quando começam a desenhar a três dimensões, perde-se tudo."
O António Lobo Antunes grande outra vez... embora eu prefira casinhas em projecções anormáticas a Noddys bidimensionais.

A utopia

A idade adulta trouxe-me a estranha noção da desigualdade entre as pessoas. Não falo de nenhuma desigualdade particular, é mais uma desigualdade generalista feita de pequenos e grandes detalhes que se ajuntam num contraste óbvio e inultrapassável entre (ainda me custa dizê-lo) pessoas melhores e pessoas piores.

A utopia da igualdade desmorona-se quando tentamos reconversar com os amigos da primária e do ciclo. Quando comentamos da precariedade no nosso emprego e ele nos diz que “de facto deve ser chato, porque ainda esta semana tive que dispensar algumas pessoas”. Quando a menina se sai com “se eu tivesse um gato dava-lhe banho várias vezes por semana”. Quando metemos conversa com o arrumador, que até é um gajo da nossa idade e ele não se digna perceber a nossa linguagem isenta de obscenidades. Quando ignoramos esta e aquela por quem outrora andámos embeiçados e que agora não reconhecemos (e passamos por snobs). Quando nos arriscamos fora das esferas que nos são familiares (e cujos diâmetros eu sempre me esforcei por manter generosos) e ficamos desintegrados, des-integrados.

Porquê só agora? É simples. Embora as diferenças se demarquem entre as pessoas desde cedo, na juventude acreditamos sempre na remissão. Mais tarde ou mais cedo vamos ser todos iguais, todos bons! Ninguém sabe como nem quando, nem porquê, mas vamos ser todos iguais porque é assim. A utopia da igualdade baseia-se em um e um só princípio - enquanto houver tempo é possível melhorar. E juventude é tempo. Por mim acreditava mais um bocado, há que levar a utopia (e a juventude), até ao fim.

Ontem vi um transeunte, já de certa idade, pegar-se gratuitamente à bordoada com o carteiro e pensei outra vez nisto, afinal o velho já tem pouco tempo para melhorar.

13.9.09

Lonely Planet

Foi decidido que não se compram mais guias do Lonely Planet que não os que digam respeito a sítios que de facto vamos visitar...

2.9.09

Birthday

A mui querida esposa, que nasceu no Victory of Europe Day (8 de Maio de 1945), prendou-me com um destes. A mim que nasci no dia em que a Alemanha invadiu a Polónia (1 de Setembro de 1939). Note-se a analogia Tolstoyesca – War and Peace (Война и мир). Depois de Cracóvia e Auschwitz-Birkenau ainda havemos de visitar Yasnaya Polyana. E neste contexto, ocorre-me terminar o post com uma citação anarco-pacifista do mestre Lev Nikolayevich:

"The Anarchists are right in everything; in the negation of the existing order, and in the assertion that, without Authority, there could not be worse violence than that of Authority under existing conditions. They are mistaken only in thinking that Anarchy can be instituted by a revolution. But it will be instituted only by there being more and more people who do not require the protection of governmental power ... There can be only one permanent revolution - a moral one: the regeneration of the inner man."

1.9.09

Férias

Para estas férias trouxe muitos brinquedos, incluindo a prancha e a fatiota de bodyboard que fiz renascer da poeira da garagem.
Assim, enquanto as senhoras torravam ao sol (entretenimento que a brancura da pele me proíbe), pude usufruir de verdadeiras férias.

No primeiro dia (Santa Cruz – Física), por exemplo, entreti-me a fazer figura de manco. O mar estava impenetrável. Ou isso ou perdi o jeito que nunca cheguei a ter por completo. Exercitei muitas dezenas de duck dives antes de me dar por vencido. Fiz figura triste, eu sei, mas vi quem desistisse antes de mim. Contudo, o revisitar da espuma a arder nos olhos foi uma boa terapia.

No segundo dia (Santa Cruz – a norte da Física) consegui juntar-me ao aglomerado de adolescentes rastejantes (os homens da minha idade preferem pranchas de surf e longboard). Depois descobri que o outside, visto ao perto, era demasiado puxado para quem já não se metia nisto há um bom par de anos. As paredes gigantescas amedrontaram-me a alma e enquanto aguardava que me chegasse afoito suficiente para descer semelhante talude (sabia que era uma descida rumo à amargura), acabei por ser apanhado por uma rebentação mais curta. Em pleno turbilhão ocorreram-me dois pensamentos: “amarrar os pés-de-pato com atacadores ao tornozelo foi uma feliz iniciativa” e “se calhar ia até casa fazer pizzas para as primas”.

No terceiro dia rumei a Peniche. Congratulo quem quer que tenha sido o valente que convenceu esta gente a mudar o nome da praia do Meão para Supertubos. É obrigatório fazer umas carícias ao cão (chama-se Super) antes de entrar no mar, também há imperial Super Bock com tremoços ao alho de prenda. O melhor spot da nação recebeu-me com direitas perfeitas. Pese o crowd modesto que costuma frequentar o sítio, sobraram-me boas ondas. Só saí para trocar o copinho (partiu-se) e para ir à latrina (há quem prefira o neoprene, mas eu não alinho em javardices). Queria ficar aqui mais tempo.

Evoca-se-me a memória dos velhos tempos. Figueira da Foz, Peniche, Ribeira d’Ilhas e Zambujeira do Mar com pouco mais que muita vontade e um bocado de plástico.

27.8.09

Catequese

“Nas aulas de catequese um velho padre de voz sumida e olhar cansado tentou, sem convicção explicar-me em que consistia a Eternidade. Eu achava que era um outro nome para as férias grandes. O padre falava em anjos e eu via galinhas. Até hoje, aliás, as galinhas são o que conheço mais aparentado aos anjos. Ele falava-nos na bem-aventurança e eu via galinhas ciscando ao sol, escavando ninhos na areia, revirando os pequenos olhos de vidro, num puro êxtase místico. Não consigo imaginar o Paraíso sem galinhas. Nem consigo imaginar o Bom Deus, estendido preguiçosamente numa fofa cama de nuvens, sem que o rodeie uma mansa legião de galinhas.”

José Eduardo Agualusa em O vendedor de passados - um dos livros destas férias

13.8.09

Do ir

Não se trata de distância. Os que se vão podem muito bem ficar ao virar da esquina e no entanto completamente idos. Felizmente a maior parte deles adoptou a estratégia do distanciamento como sinal tangível e irreversível da tal ida. Parece-me bem, ainda que o conceito de distância se traduza, nos dias que correm, numa mera questão de tempo e vontade.

Mais do que a lonjura, parece-me que o voto do silêncio será mais importante para quem se quer ir. Uma vez (erro crasso) cometi o desacerto de ligar a um destes idos. A resposta chegou por SMS (não fosse a voz tremelear): “não conheço este número”.

Saiba-se que ainda sou fiel ao meu primeiro número de sempre... pelos vistos é prática dos que se vão, eliminar todos as formas possíveis de serem alcançados pelos que ficam. O que me chateia é que todos os que se foram de mim, levaram-me alguma coisa e ainda por cima, saíram envergonhados.

12.8.09

Iróis do mar

...nóvre o pôbo de sao Valente e emortal.
Não vá alguém por em causa o meu patriotismo.